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PARA A B R I R A CABEÇA:

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Fui demitida há uma semana.
A moral ficou lá embaixo, claro. Agora estou um pouco melhor, já saí para distribuir currículos e em um restaurante em que deixei um deles, recebi um sorriso e um olhar de aprovação que me agradaram muito. É a moral subindo novamente.
Gozado isso... quando cheguei aqui em BH (ui, adoro dizer que estou em BH!), a última coisa que queria era trabalhar em restaurante novamente, e agora cá estou eu não querendo sair da área. Aprendi a amar o ofício. E a odiar ainda mais receitinhas de gerenciamento.
Minha ex gerente, que espero, esteja agora debaixo dos pneus de um ônibus, adorava cartilhas. Ela até promoveu um cursinho sobre “Relacionamento Interpessoal”. Participei do curso durante apenas 4 das suas 15 horas, e soube que o palestrante é casado pela segunda vez, tem dois filhos, um deles com 9 anos. Seu sonho de infância era ser jogador de futebol, mas teve problemas no joelho, que operou em dois lugares. Ele não desenha nada, nem com papel em cima, gosta de rock e de citar seus ídolos. Acha que quem matou John Lennon era uma pessoa invejosa e fracassada. Ama a si mesmo de uma maneira quase homossexual, tem uma vida perfeita, cheia de estrelinhas e conhece intimamente metade das pessoas “importantes” de BH, e a outra metade só de vista, no clube.
Foi nojento. Ele aplicou uma “atividade” em grupo: cada 3 pessoas deveriam escrever 10 coisas que tornam o “relacionamento interpessoal” difícil.
As respostas foram as mais óbvias possíveis: inveja, preguiça, falta de coleguismo, mal humor...
Foi quando eu não aguentei mais. Perguntei à ele qual era a finalidade daquele “exercício”. Ele respondeu que servia para mostrar para nós mesmos o que tornava a convivência difícil. E daí? Todo mundo já sabe o que é difícil, não é escrevendo numa folha, em grupo, em meia hora que a coisa vai mudar. Ele disse que é preciso que haja um começo. Pode ser, mas isso deve partir de cada indivíduo, é preciso aprender a conviver com as diferenças. E isso vai se refletir em todas as áreas da vida da pessoa. Ou qualquer outra coisa, mas, definitivamente, não era através daquele curso que alguma coisa iria mudar.
Eu disse que penso que a mudança principal nesse caso, deve acontecer lá em cima, na administração. Como pode um funcionário estar feliz e saltitante, e, em consequência, se relacionar melhor com os colegas se a “empresa” não lhe paga o salário há meses, não lhe dá condições adequadas de trabalho, não respeita as leis trabalhistas? Sequer deposita o FGTS!
Ele, com o tom de voz e todos os recursos aprendidos em cursos patéticos que o tornaram “profissional”, disse que eu tinha razão. A surpresa durou uma fração de segundo apenas. Ele “viu a oportunidade” de “vender um peixe”, obviamente. Falou que somente no dia a dia, convivendo conosco, estando lá quando o restaurante abrisse e saindo somente de madrugada ele saberia sobre nossas dificuldades, veria em que erramos, e em que nossos chefes erram. E ele teria autonomia para falar aos nossos superiores sobre os erros que eles cometem, já que ele não tem nenhum vínculo empregatício.
Acabou a pequena palestra, respirou fundo e disse, num tom de voz do tipo “sou muito amigo de vocês” que era hora de nos unirmos e reivindicarmos uma consultoria.
Foi então que tive vontade de abandonar a terra. Não posso viver num mundo onde existam palestrantes-de-pinto-pequeno-que-acham-que-todo-mundo-é-imbecil. Cadê meu sensormático subeta?!!!!!!!!
Bem, não vou ofender a inteligência dos meus 3 leitores dizendo qual foi a intenção dele, claro.
O que aconteceu foi que o sujeito, no dia seguinte, me fuzilou com o olhar. E eu olhei para ele como o rato (de pinto pequeno) que ele é. Logo vieram as consequencias. A gerente (será que nesse momento ela ainda está viva?) recebeu uma reclamação dele, me acusando de estar “minando” o curso. Veio me dizer que os outros funcionários estavam falando para ela que o curso não servia de nada, que “a mudança deveria começar de cima”. Olé! Pelo menos uma coisa eles aprenderam durante o curso, respondi. Ela alegou que muitos funcionários haviam gostado do curso, e que nem todos entendiam direito, eram como crianças, que era necessário ir devagar, fazer eles aprenderem a “pegar no giz”, e não ir logo colocando-os pra digitar, por isso o “método” que o “instrutor” usou. E bla-bla-bla-bla. Eu ouvi tudo e não concordei com nada. Repeti tudo o que havia falado ao instrutor. Fiquei curiosa em relação à “ética” e “profissionalismo” dele. Oras, ele deveria estar acostumado a questionamentos, ou não? Será que todos os funcionários que passam por um “curso” desses tem medo de questionar? “Ditadura empresarial” é um termo que já existe?
Dias depois fui demitida. E ela deixou claras as razões. Eu não concordo com o “método de trabalho” dela, portanto não podemos coexistir.
Fiquei curiosa em relação à “ética” e “profissionalismo” dela, também. O exemplo não teria que vir de cima?
Escrito por Gil às 02h19 [ ]




[ seja curioso ]