
A L ú c i a c o m e n t o u q u e v i u uma comparação entre o vinho de cabernet sauvignon e o jeans.
Como respondi, comparar tipos de vinhos com tecidos parece ser uma boa maneira de exemplificar e fazer entender algumas coisas como “corpo” e “maciez”. Pena que não funciona.
Quando eu falo de vinho, estou falando de qualquer vinho, e não somente os grandes, os belos, os caros, aqueles que possuem denominação de origem controlada (DOCs), tipicidade e tudo o mais. Por isso eu não posso dizer que qualquer cabernet sauvignon é encorpado. Existem vinhos com o “corpão” de uma anoréxica, feitos de cabernet.
Cada vinho de cada uva de cada região, produzida por cada enólogo, dá resultados completamente diferentes. Então teríamos que comparar cada cabernet sauvignon com cada tipo de jeans, de cada marca e cada coisa diferente que cada estilista faz com ele, o que complicaria imensamente a idéia inicial que é simplificar.
A parte chata do vinho é a pesquisa. Sempre se encontram as mesmas descrições e explicações, com pouquíssima diferença e algumas contradições. É raríssimo encontrar algum texto que se aprofunde mais, que explique mais, que acrescente mais sobre o vinho.
Aos totalmente leigos o material parece poder dar seis voltas ao redor da terra, mas quem já passou da fase de descrição das uvas, das técnicas de vinificação, regiões, rótulos e mais algumas informações básicas, sabe do que falo.
Partir para a enologia é como ouvir um psicanalista descrevendo o amor.
E não adianta estudar a história do vinho tentando arrancar dali maiores informações. Ela se confunde com a história da própria humanidade. E talvez nisso é que resida o belo.
Fico imaginando qual foi a primeira pessoa a beber aquele líquido vermelho já fermentado por acaso. Dizem que os primeiros devem ter sido animais, lobos, talvez. Mas não é difícil de imaginar a sensação que o primeiro ser humano teve ao beber vinho e ficar inebriado (sim, existe diferença entre inebriar-se e embriagar-se).
Foi por bons motivos que o vinho foi atribuído aos deuses e cultuado, inclusive como meio de aproximação dos mortais com eles.
A vitivinicultura evoluiu e hoje, felizmente, não bebemos mais aquele fermentado de uvas que se deu por acaso. Veio o marketing, o novo mundo, o Robert Parker, a globalização e tudo o que isso tudo pode trazer de bom e de ruim. Vieram cursos e explicações, e dúvidas e mais dúvidas, e quase nunca sabe-se tudo sobre o vinho.
Chego às vezes a pensar que quanto mais estudo o vinho, menos sei. Porque ele não se resume ao estudo. Ele precisa ser vivido. E encara-se o vinho como se encara a própria vida: simples ou complicada. Ou ambas as formas.
Viver o vinho é o mais próximo que posso chegar de uma descrição das sensações que ele provoca, talvez porque a própria vida seja indescritível, apenas sensível.
Ver uma foto do solo de granito de algumas regiões de Portugal em que a videira cresce pode ser emocionante de uma maneira que nós, homens modernos, estamos poucos habituados a descrever.
Ela cresce devagar naquele solo duro, abre fendas ao longo dos anos, procurando a mínima quantidade de água de que precisa. Sofre, muito. E o resultado desse sofrimento são os poucos frutos, carregados das propriedades que são perfeitas para o vinho.
Algumas pessoas não precisam mais do que essas informações para aprender a amar o vinho, como não precisam saber a que viemos para amar a vida.
Escrito por Gil às 15h42
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