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Larissa,
... a g o r a , a p r o v e i t a n d o o fato de você ter insistido para que eu falasse mais a meu respeito, e aproveitando mais ainda a vontade que subitamente tive de falar:
Estou numa cidade maravilhosa, mas num país de merda, que tem o governo que merece. Acho que estou envelhecendo, e isso me deixa desesperada, as vezes. Não pelas ruguinhas e os cabelos brancos começando a aparecer (ah, que mentira! é por isso, também). Mas principalmente pela maneira como ando vendo o mundo, com olhos que já se habituaram a ver coisas "sem conserto", ou, ainda, "coisas sem concerto" (usando uma figura de linguagem que não sei se existe, onde quero dizer que "concerto" é sinônimo de cultura).
Quando assisti ao filme Donnie Darko (que você tem que ver, amiga, TEM!) não pude esquecer a cena em que a professora diz ao diretor que eles estão perdendo os alunos para a apatia.
Descobri o que é “apatia”, e isso me deixa triste. E me trás à memória, essa memória que grava coisas sem sentido aparente, cenas picadas, trechos de conversas, cheiros e mais uma infinidade de coisas que sinto que estou fazendo fazerem sentido, a letra de uma música do Dante: “Eu só peço à Deus {merda de deus, que se foda!} que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário, sem ter feito o que eu queria”.
Tenho vontade de chorar, mas os longos anos de treinamento me fazem sempre engolir as lágrimas de volta.
Meu trabalho só não me oprime porque tornei-me (somente um pouco, peço à deus) apática. Convivo com pessoas que só pensam em lucro, em manter um micro poder que se estende por volta de 10 metros quadrados, gente que tenta tirar o máximo de proveito de tudo e dos outros para si mesma, que cospe no café que serve à quem não gosta.
Não entendo de ações e reações, sequer gosto de física. Não quero é sentir meu estômago doer novamente, só isso.
Sinto medo de envelhecer e não ter casa para morar, não ir até a sacada do apartamento, igual ao antigo apartamento da minha tia de Curitiba, que cheirava a Lux Luxo Mel e Óleo de Amêndoas e entoava Menino do Rio, na voz de Marina.
Estou ao lado da pessoa que amo e quando estou na rua, de madrugada, sinto medo de morrer e não vê-lo mais. Estar perto dele me faz sentir que tudo tem jeito, daí me animo.
Não sinto falta dessa porra de terra fria, descobri o significado da palavra “nostalgia”, só isso.
No mais, continuo a mesma, com a testa franzida frequentemente, os ombros tensos, a dor forte no maxilar, por vezes. Ando enxergando menos desde que comecei a usar óculos. Talvez seja porque eu não queira ver, e sinto medo que meu mundo diminua.
Escrito por Gil às 13h43
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