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Esse texto é da Larissa Mazaloti, uma amiga que admiro muito. Hoje é ela quem está a b r i n d o.
B u r a c o s f i l h o s d a p u t a
Aprendi com um amigo meu, a cavar buracos. Não. Na verdade ele só me disse que, dos meus malditos vinte anos, uns treze eu só cavei buracos. Amigos são pra essas coisas mesmo, pra nos avisar, pra jogarem limpo.
Buracos filhos da puta!
O pior mesmo me aconteceu hoje pela manhã. Sim, porque quando as empregadas faltam, o pior sempre tende a acontecer. E ela faltou hoje. Bem cedo lá estava eu a lavar a louça, depois secar e até aí tudo bem. Aí vem aquela parte legal. Limpar e secar a pia. Sempre escrevo meu nome ou desenho qualquer coisa com o detergente, hoje era um vermelho, aí fica bacana mesmo. Só que melhor ainda é bagunçar o desenho com a esponja, aí me torno artista do abstrato com o detergente na pia.
A pia lá em casa tem duas cubas. Cubas, bacias ou como queiram chamar os dois buracos onde num se enche de água e espuma para ensaboar e no outro se usa para enxaguar. Nunca gostei de limpar e secá-las. Parece que não tem fim, porque ao torcer o pano molha de novo e assim vai. Isso sem contar os restos nojentos de comida que sempre ficam nos ralos das cubas. Os ralos lá em casa são desses que tem uns quatro buraquinhos pequenininhos. É, é bem ali que ficam entrouxados os malditos grãos de arroz, um pedacinho de cebola, um feijão nojento ou qualquer coisa do gênero. Por isso é que eu sempre brigo pela importância em raspar os restos dos pratos, mas sempre alguém preguiçoso me apronta destas.
Na cuba (aquele um dos buracos da pia) que estava cheia de água e espuma de sabão sempre tenho mais trabalho. Sempre não, só quando a empregada falta. Porque fica aquele resto de espuma grossa que insiste em não descer pelos quatro buraquinhos do ralo e quando desce faz um barulho parecido com aquele que às pessoas bem agradáveis fazem com o canudo na latinha do refrigerante, assim que chega o seu fim. O importante não é o barulho, mas sim o que me aconteceu hoje.
Estava lá, enxaguando o pano da pia e aquela espuma começou a borbulhar nos quatro buraquinhos do ralo do buraco grande, a cuba. E borbulhava, e não parava e o barulho, aquele igual ao do fim do refrigerante, começou a aumentar e de repente, que loucura, uma sucção voraz me botou ralo a dentro e eu que pensava que depois dele havia apenas um simples encanamento de cozinha. Eu resisti me segurando nas bordas da pia e o inox foi se deformando e eu não tinha nenhum ponto de apoio e a sucção engoliu primeiro o meu braço direito e com tanta força que toda torta meti a cabeça e logo todo o resto, isso tudo, ralo a baixo.
Céus, eu estava a pouco simplesmente limpando a pia e agora me via encanada, engolida pelos quatro buraquinhos do ralo, o ralo do buraco maior da pia, a cuba. E como eu ia dizendo antes, jamais pensei encontrar mais do que finos canos de PVC que levavam a água nojenta e os restos de comida para algum outro lugar mais nojento ainda. O fato é que depois do ralo o buraco não tinha fim. Meu amigo, aquele que me avisou sobre minha cavação de buracos, maldito, ele não me falou que eu poderia cair num deles. Meu pecado até então era apenas cavar.
Curioso é que noite passada já tinha caído num dos buracos que cavei. Caí não, na verdade me empurraram pra ele, sim, empurraram minha cabeça de cima para baixo, num gesto brusco, porém amistoso, me deixando sem movimentos e eu fui, fui buraco a abaixo.
Buracos filhos da puta. Amigo filho da puta aquele que só me disse: você passa a vida a cavar buracos. Eu cavei, está certo, reconheço. Mas poxa, ser sugada pelos quatro buraquinhos do ralo da pia? Esses não fui eu que cavei, que injustiça!
Larissa Mazaloti
12/09/2006
Escrito por Gil às 01h18
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