
N o c a m i n h o, c h u v a d e g r a n i z o e baixíssima temperatura. Imaginei que a tempestade fosse atingir a cidade em breve. Atingiu.
Em alguns lugares as pedras chegaram a alcançar a altura de trinta centímetros.
Mas eu estava saindo dali, partindo, desviando de pedras bem mais frias e nocivas que aquelas que vinham do céu.
Tomei a pípula azul para não enjoar e conseguir dormir no caminho, porque havia tomado já a vermelha, bem antes. Estar naquele ônibus, com quase todos os objetos que me pertencem no maleiro, era já o efeito da pílula cor de sangue.
Apartamento novo, habitado por pessoas que eu só havia conhecido por e-mail, mas a casa tinha um gato, e ontem chegou mais um.
Algumas caminhadas pelo centro de Belo Horizonte me fizeram sentir a cidade aberta, receptiva.
Finalmente a sensação de anonimato sem a incômoda sensação de sentir-me invisível como em Curitiba ou encolhida, como em São Paulo.
Ainda é surpreendente para mim encontrar, no comércio ou nas ruas, pessoas prestativas e simpáticas, ver e conversar ao vivo com os amigos com quem só falava com os dedos.
Ás vezes ainda sinto falta do teclado para poder me expressar melhor. Perdi a prática da comunicação verbal, do sorriso simpático ou agradecido, das palavras faladas que possam dizer aos amigos o quanto me sinto agradecida por ter sido tão bem recebida.
Não vejo mais o namorado através de um quadradinho do canto inferior direito da tela, em movimentos atrasados, e agora o telefone serve apenas para ligar perguntando “quer dormir aqui hoje?”.
Quando olho para as montanhas gigantescas que cercam a cidade, sinto-me parte dela.
Estou do outro lado da linha, agora, e esse lado é quente e aconchegante.
Escrito por Gil às 17h59
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