
C r e s c e m o s o u v i n d o e v e n d o historinhas tolas sobre princesas boazinhas, madrastas más, vilões que riem alto e retorcem as mãos.
Os plágios pornográficos das ridículas historinhas me divertem. A inocente e tediosa Branca de Neve fazendo suruba com os sete anões e o Lobo Mal comendo a vovó em outro sentido que não o literal, me parecem bem mais plausíveis.
Não existe herói que só faz o bem, que nunca erra, nunca sente medo, nunca sente vontade de mandar seus protegidos à merda. Aliás, não existem heróis. O que existem são Humanos, nada mais.
Outra mentira que ouvimos desde crianças é sobre os Inimigos. Nos filmes de guerra nunca vemos o soldado inimigo lembrando de sua casa, família, amores, sonhos perdidos. Vemos apenas o Inimigo torturando cruelmente o pobre-soldado-que-teme-nunca-mais-ver-sua-amada (não vou falar em uniformes e bandeiras dos soldados para não ofender a inteligência de meus três leitores).
Por mais óbvia que seja essa farsa de pessoas “do bem” e pessoas “do mal” totalmente distinguíveis umas das outras, como se usassem uma marca na testa, existe muita gente que passa a vida toda acreditando que sim, os “do bem” só fazem o bem, e os “do mal” só fazem o mal.
Mas se “bem” e “mal” são conceitos absolutamente subjetivos, como é possível saber quem é mocinho e quem é bandido?
A resposta já vem pronta, dirigida pelo telejornal que mostra cabeças sem corpo sendo erguidas, imagens promovendo em quem as vê, revolta e indignação sem análise, sem reflexão, sem entendimento das entrelinhas. Reagimos da mesma forma como quando éramos crianças e nossas mães, na parte em que a bruxa vê a Branca de Neve cair em sono profundo, modula a voz e cuida da expressão facial para que sintamos raiva de uma personagem e piedade da outra.
Existem pessoas perseguindo modelos, seguindo ídolos perfeitos, ignorando que a perfeição também não existe. Rezam, se sacrificam, se violentam empurram para o fundo da alma o que consideram atitudes impróprias para pessoas “do bem”. O resultado é sempre desastroso.
Tenho uma colega que é assim. Sua maldade e frustração pesam-lhe os cantos da boca e lhe embaçam o olhar. É visível, mas jamais admitido. Às vezes ela é Branca de Neve, noutras, a madrasta.
imagem: a Branca de Neve viciada em ouro no clipe Sonne, da banda alemã Rammstein.
Escrito por Gil às 15h35
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