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Música Para Ler Sossegado

 

PARA A B R I R A CABEÇA:

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         Histórico
 

      a b r i n d o


      

D e v o   s e r ,  c o m o   disse um amigo, uma romântica enrustida.
Odeio com todas as minhas forças aquelas manifestações ridículas de romantismo (música sertaneja, flores e afins, apelidos fofos e toda a gama de coisas ''cor-de-rosa''. Aliás, odeio cor-de-rosa).
Mas...(claro que tem um "mas"!) tenho uma queda ENORME por Portugal!
Não, nunca fui pra lá, provavelmente nunca irei, o que me garante a visão romântica que tenho do país. Amo as paisagens, a língua, a música portuguesa, o sotaque português, os homens portugueses, tão educados, românticos, quentes. Não, nunca transei com um deles, o que garante que eles continuem sendo isso tudo na minha imaginação.
Agora estou eu aqui, em frente ao computador, velas perfumadas acesas, ouvindo Rui Veloso numa de suas mais melosas e lindas canções.
Por favor, chamem um exorcista!

Rui Veloso - Bairro Do Oriente
by Carlos Tê / Rui Veloso


Tenho à janela
Uma velha cornucópia
Cheia de alfazema
E orquídeas da etiópia

Tenho um transistor ao pé da cama
Com sons de harpas e oboés
E cantigas de outras terras
Que percorri de lés-a-lés

Tenho uma lamparina
Que trouxe das arábias
Para te amar à luz do azeite
Num kama-sutra de noites sábias

Tenho junto ao psyché
Um grande cachimbo d'água
Que sentados no canapé
Fumamos ao cair da mágoa

Tenho um astrolábio
Que me deram beduínos
Para medir no firmamento
Os teus olhos astralinos

Vem vem à minha casa
Rebolar na cama e no jardim
Acender a ignomínia
E a má língua do código pasquim
Que nos condena numa alínea
A ter sexo de querubim


Escrito por Gil às 00h35 [ ]



                           

U m a s   c o i s a s   q u e  minha mãe falava quando eu era criança e nas quais estava pensando havia muito, fizeram o máximo sentido hoje, quando reli um texto do Jr. Oliveira .

 

“Trai-se a tudo, menos ao desejo.Você já parou para pensar o quê você quer da sua vida? O que você espera dela? Não digo o quê o mundo espera de você. Quando digo “o mundo”, é porque existem na sociedade conceitos que delimitam o que é bom e o que é ruim, certo e errado. Por exemplo, é consenso que todos querem casa, dinheiro, carro, promoção no emprego. Mas é isto mesmo que te move?
Conheço dois irmãos, um casado com uma viúva rica, outro funcionário de um escritório com um salário modesto. Este, quando sabe que o irmão viajou para o exterior, ou o encontra de carro, enquanto ele está a pé, ou quando o irmão traz um presente mais caro para os pais, fica com inveja, ciúmes. Mas percebo que estes sentimentos são unicamente por uma questão cultural e de convenção familiar. Quando ele está trabalhando, está satisfeito consigo mesmo. À noite, quando sai com os amigos para a pizza, ri e se diverte. Não faz falta o camarão que o irmão come, a não ser quando o encontra, movido pela disputa eterna entre os irmãos. Maior crime será quando o patrão o promover, dando maior salário e responsabilidade. O que ele quer não é mais responsabilidade, é poder comer pizza sem compromisso. Mas ele acredita que promoção no emprego é que é o ideal, então passará a ser um chefe infeliz e que deixa a desejar, em comparação ao funcionário eficiente e satisfeito que era. E hoje, por acreditar que bom mesmo é a promoção no emprego, se frustra quando come pizza, que é o que realmente quer – impedido pelo que o Outro quer dele.
O humano é impedido de buscar aquilo que realmente lhe dá tesão. E nem falo em felicidade. Falo em algo próximo à satisfação.

Pensando na empresa, deve-se procurar aquele que tem como tesão a função a ser preenchida. Se o sonho do tal candidato era vender sanduíche na praia, por mais absurdo que isso possa parecer, mais difícil será para ele realmente encarnar o cargo, porque é possível trair a tudo, mas, por mais que se queira, é impossível trair o desejo – e este ficará sempre como um traço de melancolia, insistindo, aporrinhando a vida inteira.
Para ser feliz, bastaria tão pouco.Então, se o tesão do sujeito é administrar, besteira se formar em medicina – estaria mais feliz administrando uma farmácia. Se o cara gosta de produção, frustrante será a tarefa de torná-lo um comerciante. Se o sonho era brincar de caminhão, seus olhos tremerão ao se deparar com um, por mais chique que a sua mesa seja. Se o tesão é ser escravo, penosa será a tarefa de torná-lo mestre.Se o tesão do cara é cuidar das plantinhas da sua casa, do seu cachorro, do seu time, de se ocupar com as festinhas de fins de semana, ou com as eternas brigas familiares, mais fácil deixá-lo como um excelente funcionário que deve ser e procurar outro, do que tentar transformá-lo num diretor frustrado que sempre deixará a desejar.
Assim funciona inclusive com o administrador. Se o tesão é por ganhar dinheiro, ou pelo objeto da função em que se está, oquei, a vida já será difícil. Agora, se o tesão é realmente outro, o máximo que poderá chegar a ser será um escravo dos seus mil funcionários, prisioneiro de sua indústria, o eterno infeliz. O dinheiro e cargo que antes eram meios se transformarão em fim, criando a ilusão de ser esta o motivo da eterna insatisfação.
Enfim, qual é o teu caso: você faz o que gosta ou apenas gosta do que faz?”

 

Minha mãe dizia que não se pode fazer tudo que se tem vontade, nem só o que se gosta de fazer. Sempre me perguntei “porque não?”.

Acabei descobrindo que sempre fazemos aquilo que gostamos, queremos, desejamos, enfim. Não há como fugir disso, e acho que nem tem porque fugir, afinal. Moralmente aceito, ou não, causador de infelicidade alheia, talvez a nossa própria, atos inadmissíveis, não importa. Quem manda é ele e só nos resta seguí-lo, ainda que trôpegos.

 


Escrito por Gil às 01h57 [ ]



                            

                     (entre no link e clique na seta) 

N e s s a    t a r d e   d e  sábado, sem nada mais o que fazer da vida (finalmente!), num daqueles momentos de bobeira em frente ao computador, pesquisei meu próprio nome no google e... encontrei minha coluna no site do provedor local. Minha primeira coluna!

Velhos tempos. Graças à falta de atualização da coluna, e por eu querer variar o assunto, já cansada de escrever sobre vinho, e me vendo pendendo para a crônica, procurei o jornal da cidade, e ganhei uma coluna, posteriormente censurada, que me fez criar o Só Falo Por Aqui, ancestral do Abrindo as Pernas, que acabou virando Abrindo, pra que eu não me prendesse somente a um tema, novamente.

Reli minha antiga coluna sobre vinho. Eu era outra pessoa, dando os primeiros e tímidos passos, ainda muito influenciada pelo que as pessoas iriam pensar a respeito do que escrevia.

Quando recebia e-mail com um comentário, SEMPRE pensava “xii, lá vem bomba!”. Imaginava algum enólogo se descabelando ao ler as aberrações que escrevia e me chamando de tudo, menos de colunista. Mas só recebi elogios. Tantos, que imaginei houvesse alguma coisa errada. E havia. Eu era comportada demais, só falava o que meus leitores queriam ouvir, que saco! Escrevia para os outros, de forma clara, inteligível, que saco!

Me separei, troquei de emprego, enchi a cara de vinho barato ou caro, entrei em profunda depressão e parei de escrever para os outros. Foi uma evolução, inclusive por descer a profundidades próximas à pornografia ou vulgaridade.

Segurar isso é que está sendo difícil. Nunca ganhei nenhum dinheiro escrevendo para as colunas que tive (nem quero ganhar), o que me isenta de alguns vínculos, mas mesmo assim tenho lutado contra um desejo crescente: o de voltar a escrever tomando cuidado.

Preciso mudar de cidade.

 

 


Escrito por Gil às 15h05 [ ]



                

S e g u n d a    f e i r a  a polícia me parou no caminho de casa.

O policial mandou que eu encostasse a moto e pediu meus documentos. Recebi duas multas.

Andei, no sentido literal, por cada canto da cidade, também no sentido literal, tomando as providências para liberar meu bebezinho do pátio descoberto e quente da polícia.

Ontem um amigo influente me perguntou porque eu não o havia chamado no momento da apreensão. Garantiu que daria um jeito de me livrar das multas.

Eu bati a mão na testa e me chamei de idiota.

Odeio corrupção, mas a aceito quando ela me beneficia.

Quer dizer: se os políticos roubam meu rico dinheirinho, eu fico puta, mas se eu posso me safar das multas bem aplicadas, graças à um amigo, então está tudo bem.

Enfim, sou uma hipócrita, eu também, mesmo odiando a hipocrisia.

Claro que tenho diversas desculpas pra me dar, que vão desde a “todo mundo faz isso mesmo” até a “porque eles não saem por aí pegando bandidos de verdade?”. Tudo explica, mas nada justifica.

Hoje, quando saí do batalhão com minha moto, soube que nunca haverá justiça igual para todos. Mais que isso, soube que não pode haver justiça.

 

 


Escrito por Gil às 16h38 [ ]




[ seja curioso ]