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“A c h o q u e c a l ç a c o m barra dobrada nunca vai deixar de ser usada”.
A frase saiu de uma pequena brecha no tempo, que me levou para 16 anos atrás, ou, aos 15 anos, quando então, acreditava na imutabilidade dos conceitos.
Era uma tarde ensolarada e eu e minha amiga estávamos indo para o centro discutindo coisas aparentemente fúteis.
Pensar que os seres humanos jamais deixariam de dobrar a barra de suas calças me trazia um conforto de edredom velho e cheirando a amaciante. Mas em meio ao edredom havia um começo de incerteza.
Sinto uma implicância generalizada por palavras como respeito e ética. Não só por ser um tanto histérica, mas por , definitivamente, ser histérica.
A pessoa que deseja o respeito é mais velha, viveu por longos anos, entende muito sobre nada e por isso o merece. Ou, quando faz sexo, não envolve o clitóris na conversa.
Me intriga ouvir as receitas para um bom relacionamento a dois, sujo ingrediente principal é o respeito. Por ser receita, já merece meu mais profundo desprezo.
O Respeito deveria tirar um dia de folga e ir se embriagar num bar.
Ética também é um desses conceitos imutáveis.
De acordo com o que aprendi com a barra das calças, isso é questionável.
Escrito por gil às 00h38
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D a j a n e l a d o m e u quarto posso ver a pequena plantação de abóboras da minha mãe. Apenas três pés ocuparam um espaço enorme.
Adoro abóboras. Adoro a falta de sutileza de suas folhas pré-históricas. Suas enormes flores que se enchem de bichinhos, e a transformação delas naquelas criaturas extravagantes que crescem numa velocidade de... abóbora. Gatos se escondem entre a folhagem, e ficam parecendo feras prontas para atacar.
Descobrir o amarelo entre o mar de folhas verdes só não é mais delicioso que saber no que aquela enorme fruta (é fruta?) pode ser transformada. Existe um doce feito na minha região de maneira muito curiosa. Corta-se a abóbora em pequenos cubos, coloca-se na água com uma colher de cal ou um pouco de cinza, e deixa-se assim, de molho, por uma noite. Depois basta lavar e cozinhar em calda de açúcar. Cada cubo se transforma em um compartimento de molho doce.
Esse é um texto que poderia estar em qualquer jornal, ocupando espaço como os pés de abóbora que vejo pela janela.
Minhas boas vindas ao novo jornal da cidade.
Escrito por gil às 13h39
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T r a n s f or m e i a s p e ç a s de dois antigos porta guardanapos e alguns enfeites de natal, em porta retratos. Com a pouca tinta que sobrou de uma pintura, pintei uma parede de maneira a esconder as falhas da pintura velha. Restos de madeira, ferro,papel, tecidos, são vistos por meus olhos como possibilidades.
As pessoas olham a coisa pronta e exclamam diversos Óohs,de aprovação. Demoram para perceber a que pertencera as peças, originalmente.
Sinto-me na maioria das vezes envergonhada com essas manifestações. Estou enganando as pessoas porque a coisa sempre esteve ali, bastava enxergar.
Talvez a arte seja uma maneira de mostrar o óbvio de maneira nada óbvia.
Escrito por gil às 13h46
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S e d e p e n d e s s e somente dela, bateríamos o cartão, assinaríamos o livro de entrada e ainda teríamos que preencher um formulário com pelo menos 3 vias cada vez que entrássemos no trabalho, ou saíssemos. Ou fôssemos ao banheiro (num processo facilitado, para agilizar: ( )Número 01 ( )Número 02 ( )Outro) Seríamos vigiados por câmeras cujas imagens seriam minuciosamente analisadas. Absolutamente tudo o que se fizesse teria que ser anotado, e revisto. E colocado em pastas organizadas e esquecidas, que não poderiam ser queimadas, a menos, é claro, que fossem copiadas e devidamente guardadas, depois de ter-se preenchido os documentos necessários. A simpatia estaria fora de questão. Pra que ambiente de trabalho agradável? Aliás, essa pergunta não poderia existir, porque ela não entenderia seu significado, ela só entende de papéis e entrave, esse, visto como único meio de manter a ordem. Fico imaginando uma vida sexual com ela. Na hora da penetração, dá-lhe notas de pedido, em duas vias, com carimbo e CNPJ. Os gemidos teriam que ser autorizados pelo órgão competente, que não é aquele que você está pensando, não. Com ela, deitariam funcionários públicos e operadores da telefonia fixa, principalmente, embora muitos outros profissionais sintam-se imensamente atraídos pela sua falta de sensualidade. Ela é feia e burra. E causa cólera por onde passa. Se a Burocracia tivesse tivesse um nome de mulher, certamente se chamaria Rosângela.
Escrito por gil às 00h17
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Megalópolis Condenada

A m ú s i c a q u e toca hoje me causa muitas sensações.
Sinto-me envolvida numa espécie de aura de mistério, sossego e uma paz que não é exatamente o oposto da guerra. É uma paz fugidia, que aflige um tanto. Se a descrevesse como um cenário, diria se tratar de um campo devastado por uma batalha antiga, já esquecida.
É como encontrar à mim mesma, e aceitar-me, não resignada, nem feliz, apenas aceitar-me.
Penso em meu namorado, andando ao meu lado, entre as ruínas. Não somos mais corpos, nem precisamos dizer mais nada um ao outro. Aceitamos a visão, somente isso.
Hoje toca: Gatts
Escrito por gil às 23h30
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A c h o q u e e x i s t e m discussões que não levam à nada. Se deus existe ou não, o que é bom ou mau, se eu estou certa e você, não, ou vice versa, e o que leva os homens e mulheres à traírem seus parceiros.
As cartilhas rezam que o homem trai porque não encontra na mulher nenhuma vontade de realizar suas fantasias sexuais (desde o comum anal a submeter a mulher à uma transa com um abacaxi), ou a tradicional crença no instinto sexual indomável do macho.
Já a mulher deve trair porque seu parceiro não a satisfaz, ou porque está apaixonada por outro homem, ou, mais recentemente, os “especialistas” resolveram dizer que ela também trai por prazer, exatamente como o homem. Sinal dos tempos modernos, tardio.
Discussão infindável, até porque o próprio conceito de traição é subjetivo. E algum conceito não o é?
Fico pensando que, ao invés de as pessoas perderem um tempão tentando descobrir porque foram traídas, seria melhor perguntar diretamente ao parceiro.
Ou, talvez, devessem perguntar a si mesmas porque, afinal, dão tanta importância à fidelidade.
Escrito por gil às 01h01
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[ seja curioso ]
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