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PARA A B R I R A CABEÇA:

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         Histórico
 

      a b r i n d o


N a   m i n h a    c i d a d e, como em todas, há uma louca. Aqui a chamamos Augusta Louca. Existem lendas acerca do que a teria feito perder o juízo, as mesmas de sempre: foi abandonada no altar, bateu com a cabeça, o filho morreu...

Ela já foi mais ativa, mas ainda hoje anda pela cidade gritando palavrões para quem queira e também para quem não queira ouvir. É temida pelas crianças, ou pelo menos, era.

Não faço a menor idéia de como se mantém, onde mora, se tem parentes, qual seu sobrenome. Não sei nada além de que ela sempre existiu e sempre foi louca. Há uns anos  foi atropelada e quebrou uma perna. A população se condoeu da sua situação, e, ao que parece muita gente a ajudou. E ela voltou a atravessar a cidade de muletas gritando o que ninguém mais tem coragem de gritar, não em seu juízo e civilidade perfeitos. 

"De volta a velha Augusta Louca de sempre" - diziam as pessoas ao vê-la passar, capenga. Ouvi alguém comentar certa vez que ela é louca mas também extremamente religiosa. Sempre presente na igreja, rezando, cantando, a primeira a receber a hóstia.

E, ao sair da missa, presenteia a também religiosa população com caralhos e bucetas atirados aos berros.



Escrito por gil às 02h12 [ ]



   

N o  s o n h o  o s  r a p a z e s falavam uma língua desconhecida, que supus fosse árabe. Se apresentavam lado a lado, submissos, vigiados pelos guardas. A construção não era segura, mas os prisioneiros não fugiriam.Somente duas pessoas não eram japonesas. Uma delas falou comigo. Era um rapazinho de cabelos compridos cacheados e emaranhados. Tinha um olhar que me despertava uma  enorme vontade de beijá-lo com ternura.  O outro ocidental estava perto dele e não tinha o olhar tão doce. Era mais velho. Mostrou-me discretamente um pequeno objeto que poderia ser uma gaita de boca ou um canivete suíço. Fui conversar com umas pessoas que estavam atrás deles, e falavam a mesma língua dos outros, mas eu os compreendia.Eu era uma espiã, mas não sabia exatamente o que fazia ali. Pensava apenas nos olhos do rapazinho.Ao cruzar novamente com eles, o mais velho, com os olhos que diziam “toma cuidado com isso, você pode nos salvar”, entregou-me o objeto, como quem entrega ao seu legítimo dono algo que caiu . O guarda que o vigiava desconfiou, mas parecia querer deixar aquilo acontecer, como se estivesse previsto. Imediatamente depois de pegar o objeto, perguntei ao garoto de cabelos cacheados o que devia fazer com aquilo, e ele, me abraçando, sussurrou no meu ouvido alguma coisa que não compreendi, e eu dei-lhe um beijo ansioso, desejado há muito. Sabia que estava perdida assim que peguei o objeto. Sabia que seria pega. No momento seguinte estava sobre um trampolim de uma piscina magnífica, de onde a água descia e formava outras piscinas, em degraus. Era tudo muito branco e haviam coqueiros ao redor, e prédios, como em um condomínio. Muitas pessoas, todas orientais,  nadavam e moravam nos prédios. O lugar era um deserto lindo de areias brancas. Andei sobre o trampolim com entusiasmo, que foi morrendo conforme chegava ao seu final. Acabei tentando disfarçar, fingindo que me divertia, mas olhando para trás vi o homem que me levara até ali. Ele estava no comando e seria inútil mentir pra ele. Soube também que teria que saltar do trampolim, e que assim que o fizesse, surgiriam crocodilos na piscina. “Pra que esperar?” – perguntou ele, e falou mais algumas coisas que quis esquecer pouco depois de acordar. Seu olhar guiou o meu até os apartamentos de um dos prédios.Vi um casal. Eles riam felizes. Ele levava a mulher de olhos vendados até a sala. Lá, descobriu seus olhos e imediatamente as expressões em seus rostos se modificaram. O amante dela estava lá, e o marido sacou uma arma e atirou nele diversas vezes. Ela sentou e resignou-se. Meu olhar mágico subiu mais um andar e se deparou com uma pessoa de sexo indefinido, vestida com pijamas. Estava bêbada e parecia muito feliz. Sentava perto de uma mesa, que tinha um lustre logo acima. Outra pessoa surgiu na cena e começou a enrolar um barbante em todo o seu corpo, especialmente no pescoço. Depois prendeu o barbante num objeto, e o prendeu no lustre. Fez com que o bêbado levantasse, e ele, desequilibrado, se enrolava cada vez mais no barbante, e dançando feliz, tropeçou e enforcou-se. Num outro andar alguém enfiava uma espada no peito de uma outra pessoa. O sangue jorrava. Tudo isso em meio à uma paisagem deslumbrante. Olhei para baixo, vi a água. Senti-me desanimada. Senti os olhos da pessoa que me levara até ali. Não havia como escapar dela. 

 

O rapaz jovem é meu namorado, o mais velho, alguém que me ofereceu um convite “irrecusável”, que é o objeto que me entrega em seguida.

Aceito o convite, (na vida real, poderia ter aceito) mas logo percebo que o lugar paradisíaco para onde fui não é o que eu desejava. Vou ser igual a todo mundo (como os japoneses) se continuar ali. O que significa para mim participar dessa sociedade consumista, além de outras coisas. Meu inconsciente me olha sobre o trampolim, ou meus atos. Dele eu não escapo. Sei que tenho que pular na piscina, e serei devorada pelos crocodilos, ainda viva. Ou, terei que arcar com as conseqüências de minha escolha. O primeiro crime que vejo é crime de traição. Eu traí meu namorado aceitando o convite. Ele sabe e tenho que resignar-me com a separação. No segundo crime eu fico eufórica e esqueço de tudo, ao aceitar o convite, como num sonho (daí o pijama). Enredo-me nas mentiras (o barbante) e tropeço em mim mesma, me enforcando, como o bêbado. Não sou justa ao trair, como não é justo o assassino, que mata a outra pessoa desarmada, sem dar-lhe chance de defesa. Tem muito mais símbolos que ainda não decifrei, mas só isso já me revelou muita coisa. Claro que o Hermann me ajudou a decifrar o sonho.

Meu inconsciente lembrou-me sobre o que é mais importante para mim.

Porque? Talvez porque, como humana que sou, tenha esquecido disso por um breve momento...

 

Hoje toca a música tema do filme Donnie Darko. Vale MUITO a pena ver. O artigo do link fala um pouco sobre o filme, mas acho que nada melhor que você assitir pra tirar suas próprias conclusões. Se não encontrá-lo, me peça. Eu tenho e posso copiar, totalmente de grátis...rssss

 


Escrito por gil às 01h52 [ ]



                     

D o r m i a  n o  m e s m o quarto de seus pais. Quando ele estava em casa, deitada na cama, via-o fazer carinhos “naquela” parte do corpo de sua mãe, por debaixo das cobertas.

Odiava ter que deitar mal o sol se pusesse, por vezes antes disso. Passava horas ajoelhada no colchão, brincando com personagens representados por seus dedos sobre o aparador da janela ao lado da cama.

O diabo sairia de baixo do móvel  para pegá-la caso se comportasse mal, avisava a mãe, ameaçadoramente.

A cama onde perdeu a virgindade era suja. Ficou tingida de sangue e surpresa.

A rede serviu de cama diversas vezes. Escreveu diário sobre a cama. Masturbou-se, sonhou.

Sobre uma cama de hotel, numa viagem, ouviu a irmã, na cama ao lado, chorando, certa de que todos dormiam.

Gostoso dormir em cama de casal! Um corpo quente e aconchegante ao lado. Isso nas vezes em que não precisava se encolher e fingir que dormia.

A melhor amiga dormia junto, numa cama de solteiro, e a alegria de tê-la tão perto compensava as dores do dia seguinte.

“Vou te fazer esquecer tudo” – disse ele, tirando sua roupa, para depois do sexo levantar da cama com uma desculpa, fazendo-a abandonar o travesseiro macio, o calor do edredom, e voltar para uma outra cama, fria.  

Não queria acordar. Depois, não queria levantar.

Um hotel, cheio de camas macias: “Podemos ficar aqui no quarto, mas não podemos desmanchar as camas”.

O travesseiro salgado e úmido. Mais travesseiros tentando inutilmente substituir um corpo.

A cama com um cheiro tão gostoso que dava vontade de nunca mais lavar os lençóis!

 

a ilustração é a capa do livro O homem e seus Símbolos, de Jung.

 


Escrito por gil às 00h38 [ ]




[ seja curioso ]