
D e i x e i d e a c r e d i t a r e m deus há muito tempo, ou, parece que há muito.
Desfiz qualquer laço com a crença, faço questão de escrever seu nome em letras minúsculas, e até já o mandei
pra puta-que-pariu. Ontem, voltando para casa, depois do trabalho, meia noite, vi um grupo de jovens numa esquina perto de casa, atacando quem se aproximasse.
A violência chegando, a velha sensação de impotência, a mesma vontade de matar aquelas pessoas, com requintes de crueldade. O coração se apertando, o nó na garganta, a vontade de gritar. A certeza da vida se escoando. Tudo muito conhecido, tudo se repetindo.
Não poderia me tornar invisível, não poderia voar, talvez sequer pudesse correr, se fosse atacada.
Tive vontade de acreditar em deus, ontem. Tive vontade de ter uma mão divina me confortando. Mesmo
que isso me cegasse, mesmo que isso me limitasse, mesmo que essa mão não esmagasse os marginais.
Hoje toca: Duvet, tema do anime Lain, o mesmo da foto e link aí de cima. Vale a pena assistir.
Escrito por gil às 12h53
[ ]
N O V E L A

D e u t e m p o s o m e n t e para pegar a filha, ainda bebê, e a bolsa com pouco dinheiro.
Chegou ao hotel, pediu o quarto mais barato. Quis dar um telefonema.
Toma cuidado, ele está louco. Pegou a arma, disse que vai me matar. Tive que chamar a polícia. Ninguém
pode saber onde estou.
Perguntou se tinha chocolate para vender. O bebê havia confundido o pequeno sabonete, e ficara com vontade.
Passou pela recepção diversas vezes, sempre espiando para fora, excitada, sempre perguntando se alguém havia chegado e perguntado por ela. Sempre com o tesão mal contido sob a aparência de vítima.
Depois de alguns minutos pareceu frustrada. Pediu novamente o telefone.
Saí fugida, ele carregou a arma, me ameaçou. Eu estou aqui no hotel, aquele na saída pra Curitiba. Mas ninguém pode ficar sabendo.
ilustração: “Desejo”, de Greg Spalenka
Hoje toca: Suicide Commando, Construict Destruction
Escrito por gil às 12h26
[ ]
[ seja curioso ]
|